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O princípio da primazia da realidade como um instrumento de boa-fé têm por objectivo a protecção e a igualdade substancial na relação de emprego

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1 - Introdução

Historicamente, o empregado sempre esteve numa intensa e constante luta pela conquista de direitos que se lhe apresentam coerentes com o sentimento jurídico inerente a esse grupo e contra os abusos praticados pelos empregadores.

O trabalho é para o operário sua fonte de recurso material, a origem de sua propriedade e, por isso, o reflexo de sua própria personalidade. Daí a importância do Direito do Trabalho - como regulador de uma relação jurídica (a de emprego) em que é característica a disparidade de poder entre as partes, até mesmo pelo significado aludido do trabalho – e da luta pelo direito para os empregados.

O trabalhador figura na relação de emprego (em que o empregador se situa no pólo passivo) como hipossuficiente, muitas vezes não tendo o poder hábil para fazer reivindicações e, quando as fizer, obter êxito. Isso porque essa relação é, historicamente e na maioria das vezes, de grande facilidade para o detentor do capital e da vaga de emprego (logicamente o empregador) e de difícil realização satisfatória para aquele que tem a pretensão de trabalhar. Se assim não fosse, não existiriam preocupantes índices de desemprego e de desigualdade social (o que se sabe não é assim que ocorre).

Nesse contexto, o princípio da primazia da realidade, assim como os demais princípios do Direito do Trabalho, se baseia na hipossuficência do trabalhador para garantir a esse uma proteção contra eventuais abusos por parte do empregador no que concerne às divergências entre a prestação de serviços e o que está documentado (inclusive no contrato!).

Esse princípio ordena que os fatos devem prevalecer sobre os documentos, ou, em outras palavras: por mais que haja um registro formal declarando determinada condição ou situação, esse deve ser desconsiderado mediante a constatação de inverossimilhança entre ele e as circunstâncias fáticas, conquanto tenha a assinatura ou confirmação dos sujeitos da relação de emprego. Isso significa que, no Direito do Trabalho, os documentos acessórios ao contrato de trabalho não têm a natureza iuris et de iure.

Fundamenta-se o presente estudo na necessidade que surgiu de se dar novo entendimento às relações jurídicas a partir dos novos paradigmas introduzidos com o ordenamento jurídico atual (Constituição Federal de 1988 e Código Civil de 2002). Abandonam-se, assim, o liberalismo e individualismo, comuns até recente data, e é tomado como norte os valores constitucionais da boa-fé objetiva, solidariedade social, dignidade humana e igualdade substancial em todas as relações jurídicas, não mais se admitindo a lesão a interesses particulares ou públicos em decorrência de abusos, seja por comissão ou omissão, culpa ou dolo, cometidos nessas relações.

Além disso, o direito a uma relação empregatícia saudável é inerente ao contrato de trabalho e pertence tanto ao empregado quanto ao empregador, surgindo desse contrato deveres a ambos, e pelo qual operário e patrão se comprometem a uma fidelidade e cooperação recíproca, baseada na confiança e tendo a boa-fé como um dos pilares fundamentais. Nessa esteira de intelecção preleciona Martins (2010, p. 95):

O empregado deve proceder com boa-fé, diligência, fidelidade, assiduidade, colaboaração. Não pode concorrer com o empregador. O empregador deve atuar com boa-fé, observar as normas de segurança e medicina do trabalho e não discriminar.

Dessa maneira, objetiva-se a elucidação da importância do princípio da primazia da realidade para a incidência da boa-fé objetiva, tutela da confiança e igualdade substancial na relação de emprego (temas esses que serão abordados mais adiante). Demonstra-se que as condições fáticas (não previstas no contrato ou não documentadas) devem ser encaradas como verdadeiras cláusulas contratuais geradoras de direitos e limitações tanto sob a ótica do empregado como do empregador.

Ademais, é necessário demonstrar que o princípio jurídico-trabalhista em questão enseja uma presunção entre as partes de que aquilo que se suceder de fato é assumido como da vontade de ambas, portanto de consequências presumíveis e assumidas, não sendo lícito a nenhuma delas alegar mera culpa ou erro pela não contraprestação devida.

Para tanto, buscou-se, na literatura do Direito do Trabalho, Direito Civil, Filosofia do Direito e jurisprudência, a pesquisa para tratar das questões relacionadas aos conceitos básicos necessários ao entendimento do assunto; da ambiguidade de incidência do princípio da primazia da realidade (tanto em favor do empregador como do empregado); dos fundamentos do princípio; importância; e consequências práticas desse.

2 - Da primazia da realidade no ordenamento jurídico trabalhista

Tem fundamento, o princípio da primazia da realidade, na desigualdade da relação de emprego, em que o empregador, na condição de economicamente mais forte, impõe sua vontade ao empregado; na hipossuficiência do empregado; e na natureza do contrato de trabalho, que é de trato sucessivo[1] - assim, ao passar do tempo, as atividades empresariais, bem como os anseios humanos, tomam novas necessidades e formas de organização e execução. Todavia, pode-se dizer que tal princípio tem como finalidade a pessoa humana em sua dignidade; a promoção de igualdade no relacionamento entre elas; o bem comum; a facilitação da boa-fé objetiva; e a tutela da confiança na relação jurídica empregatícia.

Na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pode-se observar a incidência do princípio da primazia da realidade em seu artigo 442, que diz: "Contrato individual de trabalho é o acordo tácito ou expresso, correspondente à relação de emprego" (grifo nosso). Vê-se nessa norma uma forte ligação com o princípio, uma vez que o Estatuto Consolidado não encara diferentemente o contrato celebrado tacitamente (presumidamente diante dos fatos) daquele outro documentado ou registrado.

O referido princípio no Direito do Trabalho também tem destaque no art. 9º da CLT, o qual preceitua: "Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação." (grifo nosso), bem como no artigo 461, que diz: "Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade." Desses depreende-se, respectivamente, que a verdade real se opera de pleno direito a partir da constatação de falsidade nas formas e que não importa a denominação dada aos cargos, mas a função exercida de fato.

Podem ser citadas como causa de divergências entre a realidade e os documentos na relação de emprego: a não atualização dos dados nos documentos acessórios ao contrato de trabalho; o erro no momento em que se qualifica o trabalhador; a natureza dos pagamentos ou da categorização do contrato; ou a própria má-fé por parte do empregador, que, como já explanado, detém maior poder sobre o subordinado.

De fato, são inúmeras as formas de proteção trazidas ao trabalhador pelo princípio da primazia da realidade no Direito do Trabalho, do qual podem surgir, dentre outras, as seguintes consequências práticas:

a) Reconhecimento de vínculo empregatício do operário quando esse presta serviços à empresa em condições nas quais se configurem os requisitos de uma relação de emprego, pouco importando a forma contratuada. Nesse sentido:

EMENTA: RELAÇÃO DE EMPREGO x CONTRATO DE PARCERIA. EXISTÊNCIA DE SUBORDINAÇÃO JURÍDICA CARACTERIZADORA DE RELAÇÃO DE EMPREGO. Não basta nomear-se ´contrato de parceria´ para se afastar uma autêntica relação de emprego, máxime quando as provas dos autos evidenciam que a Reclamada exercia sobre o obreiro poderes de direção, comando e controle, caracterizadores da subordinação jurídica, que é o traço basilar da relação empregatícia". (TRT 23ª Região. RO n.º 1260/99, Ac. TP n.º 3661/99, Relator Juiz João Carlos, julgado em 14 de dezembro de 2002).

Verifca-se que no julgamento referido foi ignorada a nomeação que se deu ao contrato, primando pelas caracterísitcas reais do mesmo, que no caso são de uma relação de emprego, como bem entenderam os julgadores. Casos não incomuns também são os do trabalhador pessoa física exercendo atividade como pessoa jurídica e o do contratado por intermédio de outra empresa especializada na disponibilização de mão de obra, mas que de fato mantém vínculo empregatício com a tomadora de serviços;

b) Reconhecimento de direitos trabalhistas, quando da prestação de serviço, documentada erroneamente ou não formalizada, sem a devida contraprestação, ainda que os documentos digam o contrário e que o vínculo empregatício já esteja reconhecido.

Nesse contexto, são exemplos os casos de salário pago sob forma de natureza não salarial ou não formalizada, qualificação da rescisão, gozo de férias e jornada de trabalho irregulares, dentre outros;

c) Inversão do ônus da prova e valorização da prova oral e testemunhal, quando os documentos são, a priori,inverossímeis. Nessa esteira:

EMENTA: HORAS EXTRAS – PROVA – Considerando-se que é do Reclamante o ônus da prova do labor em sobrejornada, alegado na inicial – CLT, artigo 818, quando o empregador oferta controles de horário, que não retratam a efetiva e real jornada de trabalho do empregado, deve-se valorizar a prova oral do trabalhador, em detrimento da prova testemunhal da empresa, que se limita a confirmar os controles invalidados. (TRT 15ª R. – RO 014980/2000 – Rel. Juiz Luiz Antônio Lazarim – DOESP 28.01.2002, grifo nosso);

No acórdão ora citado, além da desconsideração do documento (no caso, o controle de horário), por ser de evidente inverossimilhança, adotou-se como verdadeira a simples alegação oral do operário, encarregando o empregador com a prova em contrário, desde que condizente com a realidade.

Como corolário desse princípio, aquilo que ocorre no dia-a-dia da prestação de serviços de fato altera o contrato de trabalho gerando direitos e deveres concretos e imediatos entre as partes.

Destarte, quando de um julgamento que envolva prestação de serviço, é natural que se prime pela realidade em razão das circunstâncias que conduzem a relação de emprego. Nesse espectro, Martins (2010, p. 65) lembra:

Muitas vezes, o empregado assina documentos sem saber o que está assinando. Em sua admissão, pode assinar todos os papéis possíveis, desde o contrato de trabalho até seu pedido de demissão, daí a possibilidade de serem feitas provas para contrariar os documentos apresentados, que irão evidenciar realmente os fatos ocorridos na relação entre as partes.

3 - A característica sinalagmática do contrato de trabalho

É importante salientar que o contrato de trabalho é sinalagmático, portanto ambas as partes do contrato assumem, de livre vontade, obrigações, ou deveres, entre si, "com a satisfação de prestações recíprocas" (MARTINS, 2010, p. 95).

Dessa forma, a não contraprestação de uma das partes implica em lesão à outra, ferindo a igualdade substancial no contrato e, portanto, causando desequilíbrio.

Percebe-se que o sinalagma no contrato de trabalho representa uma cooperação entre empregado e empregador. Nesse contexto, a primazia da realidade visa garantir que essas contraprestações devidas, mas sem respaldo formal pelos diversos motivos ensejadores de divergências explanados alhures, sejam reconhecidas e realizadas numa relação de emprego.

4 - Da boa-fé objetiva, solidariedade social e dignidade da pessoa humana no vínculo empregatício

De acordo com Schreiber (2005, p. 79), a boa-fé objetiva consiste num "princípio geral de cooperação e lealdade recíproca entre as partes" e representa "expressão da solidariedade social no campo das relações privadas". Ela difere da boa-fé subjetiva, conforme Farias & Rosenvald (2010, p. 80) no sentido que "a boa-fé objetiva é a boa-fé de comportamento, enquanto a subjetiva é a boa-fé de conhecimento", e, ainda, "deve ser compreendida como estado (a subjetiva), enquanto a boa-fé objetiva deve ser encarada como dever de conduta".

Assim, o princípio da boa-fé objetiva é aquele que comanda o comportamento dos sujeitos de uma relação jurídica, ou, ainda, a forma como esses devem efetivamente agir em decorrência da relação. Além disso, complementa Schreiber (2005, p. 80):

Sob o ponto de vista dogmático, tem-se, por toda parte, atribuído à boa-fé objetiva uma tríplice função no sistema jurídico, a saber: (i) a função de cânone interpretativo dos negócios jurídicos; (ii) a função criadora de deveres anexos ou acessórios à prestação principal; e (iii) a função restritiva do exercício de direitos.

A CLT, em seu artigo 8º, parágrafo único, estatui que "O direito comum será fonte subsidiária do direito do trabalho, naquilo em que não for incompatível com os princípios fundamentais deste". Já o direito comum, especialmente o Código Civil, em seu artigo 422, normatiza: "Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé."

Disso, denota-se a plena incidência do princípio da boa-fé no Direito do Trabalho. Ademais esse é um valor constitucional e, por isso, obrigatório e geral, servindo "como regra interpretativa de todos os negócios jurídicos" (FARIAS & ROSENVALD, 2010, p. 80).

Demonstra-se que a boa-fé se trata de valor constitucional, conforme dissertam Costa & Gomes (2004), pois o texto da Carta Magna de 1988 estatui que a República Federativa do Brasil se fundamenta na dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF), tem como objetivo "construir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I, CF), e visa "promover o bem de todos" (art. 3º, IV, CF); além de se constituir num Estado Democrático de Direito (art. 1º, CF). Conclui-se, então, que tais fundamentos, objetivos e valores se respaldam inequivocamente na boa-fé.

Na esfera dos valores constitucionais, de incidência geral e obrigatória, também têm destaque a solidariedade social e a dignidade da pessoa humana.

Conforme doutrina de Schreiber (2005), os dois estão intimamente ligados - a solidariedade social corresponde ao novo modo de encarar a dignidade humana: diferente de como se fazia até meados do século passado, quando essa era vista como uma proteção da pessoa, individualmente considerada, em relação ao Estado, hoje se vê a necessidade de proteção mútua entre os prórpios indivíduos, pois as mazelas sociais do mundo contemporâneo fizeram com que o homem passasse a pensar no outro como requisito do seu próprio bem e da sociedade como um todo.

No que concerne aos princípios acima mencionados, e à relação deles com o Direito do Trabalho, é interessante lembrar que as condições fáticas, ainda que não previstas no contrato, se sucedem na medida em que os relacionamentos sociais se adaptam às necessidades humanas e, ato contínuo, à dignidade das pessoas.

Nesse sentido, são válidas as alterações no contrato de trabalho, desde que atinjam efetivamente um fim social e uma melhoria na vida de cada um dos envolvidos, direta ou indiretamente, nessa nova forma de prestação de serviços. Verbi gratia, quando patrão e empregador consentem numa condição de trabalho divergente do que fora acordado anteriormente, devem ambos estar cientes dos limites aos quais essa condição nova deva respeitar, e dos deveres que surgem dessa nova realidade, pois pouco importará (se cientes não estiverem) quando da ocorrência de abusos, cabendo à parte responsável a reparação dos danos causados.

Vale dizer que: quando situações novas surgem - o que é comum no relacionamento social, não sendo diferente na relação de emprego - a boa-fé tem fator preponderante na interpretação e aplicação das normas existentes aos fatos novos.

Da mesma maneira, a partir do princípio da boa-fé, deve haver consensualismo entre os envolvidos na relação jurídica, sendo ilícita a vantagem por um deles que implique lesão ao outro sob o pretexto da existência de um acordo pré-estabelecido e aceito por todos. Por vezes, usando a referida interpretação com base na boa-fé, tal acordo ou contrato pode ter sua forma anulada diante dos fatos, para a concepção de um novo, preservando-se as vontades das partes com os devidos ajustes.

Sobre o tema, a legislação civil disciplina: "Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes." (CC, art. 187).

A finalidade desses princípios não é outra senão a dignidade da pessoa humana, norteadora das relações jurídicas e fundamento constitucional da República Federativa do Brasil, uma vez que o bem comum corresponde ao bem de cada um e vice-versa.

Nesse contexto, o princípio da primazia da realidade assegura aos pólos da relação jurídica trabalhista a preservação de um saudável exercício do trabalho, considerando a natureza sucessiva do vínculo empregatício e a diferença de poder econômico entre as partes, conquanto o empregado ou empregador consintam em renunciar aos benefícios consequentes da boa-fé objetiva nas relações jurídicas, o que configura numa nulidade dessa renúncia em si (sem anular a vontade das partes e a as consequências da realidade do contrato), justamente por ferir os princípios legais e de interesses gerais.

5 - Da tutela da confiança

A confiança consiste no grau de segurança que existe no consciente da pessoa. Ela tem forte intimidade com a boa-fé no sentido que aquela afere o sentimento de expectativa de êxito dessa. Dessa maneira, a confiança surge a partir da consciência da boa-fé, subjetiva, e tem respaldo e ganha força na incidência jurídica dessa – o que consiste na boa-fé objetiva.

Conforme o conceito de confiança e sua ligação com a boa-fé, Menezes apud Schreiber (2005, p. 86) explica:

Nas suas manifestações subjectiva e objectiva, a boa-fé está ligada à confiança: a primeira dá, desta, o momento essencial; a segunda confere-lhe a base juspositiva necessária quando, para tanto, falte uma disposição legal específica.

Dessa forma, a tutela da confiança adquire importância especial na ruptura do paradigma individualista vigente até pouco tempo, sendo aquela requisito essencial para uma relação jurídica solidária e saudável, pois incentiva um relacionamento livre de insegurança e mais apto a efetivar a dignidade da pessoa humana. Schreiber (2005, p. 88) ainda pondera:

O reconhecimento da necessidade de tutela da confiança desloca a atenção do direito, que deixa de se centrar exclusivamente sobre a fonte das condutas para observar também os efeitos fáticos da sua adoção. (grifo nosso).

Nesse contexto, a primazia da realidade age tutelando a confiança na relação de trabalho, ao provocar no consciente do trabalhador e do empregador a sensação de segurança de que ambos devem estar cientes de seus deveres no momento em que é acordada determinada condição, sob pena de reparação pelo não cumprimento desse dever. Além de, principalmente, possibilitar a anulabilidade da forma em que são concebidos os acordos, contratos ou documentos que ocultam ou visam ocultar a realidade dos fatos, aproveitando-se, em tais casos, as vontades das partes, e fazendo uma recategorização desses negócios jurídicos.

Portanto, aquele princípio trabalhista é o respaldo juspositivado que a confiança tem na relação de emprego.

6 - Da igualdade substancial

Trata-se, a igualdade, de outro princípio constitucional, presente desde o prêambulo da Lex Mater até seu fim, e que, portanto, deve ser obrigatoriamente atendida no âmbito das relações jurídicas em geral. Ela se complementa junto às outras normas-valores no intuito de promover a solidariedade social e a dignidade da pessoa humana.

A Constituição ordena que a igualdade não apareça apenas como uma pretensão formal nas normas jurídicas, mas que seja efetivamente promovida, levando em consideração as desigualdades, para que, assim, essas normas se mantenham constitucionais. Deste modo, para atender às exigências constitucionais, a igualdade deve ser substancial.

Todavia, a igualdade não incide apenas sobre leis ou normas jurídicas, mas entre os particulares (MORAES, 2010). Portanto, todo contrato deve ser substancialmente igual entre as partes, fazendo um "tratamento desigual dos casos desiguais, na medida em que se desigualam" (MORAES, 2010, p. 36).

Na relação de emprego, diante da disparidade econômica entre empregado e empregador, a igualdade substancial ganha relevante destaque, servindo como um princípio norteador desde o momento do acordo contratual, passando pela prestação e contraprestação dos serviços, até o momento da rescisão, considerando também os terceiros envolvidos, a exemplo dos próprios colegas de trabalho, clientes e a sociedade em geral.

Vê-se aqui que o valor principiológico da primazia da realidade, quando aplicado razoavelmente, pode funcionar como o fiel da balança na relação de emprego, pois assegura que as desigualdades ou desproporcionalidades sejam sanadas por meio da demonstração de verossimilhança nas alegações apresentadas pela parte insatisfeita, ressucitando, assim, o caráter sinalagmático do contrato de trabalho.

7 - Da ambiguidade de incidência do princípio da primazia da realidade

Em que pese a interpretação histórica, social e sistemática da primazia da realidade possa levar ao entendimento de ser tal princípio direcionado ao empregado, não significa que, em determinados casos, o empregador não possa invocá-lo em seu favor. Isso porque não se deve cometer o exagero de dar a esse instituto de proteção uma prerrogativa exclusiva do operário, deixando, assim, margem à possibilidade de injustas privações ao patrão.

Assim, conceder ao empregado uma maneira de obter vantagens desmerecidas, ao impedir o uso da primazia da realidade em favor do empregador, seria ir de encontro ao próprio princípio trabalhista. Pelo que esse visa primar pela realidade das condições de trabalho, sanando situações em que um dos sujetios da relação de emprego se prejudique por cumprir seu dever e não obter as devidas contraprestações.

Não tem procedência o argumento daqueles que defendem a inaplicabilidade do princípio da primazia da realidade em favor do patrão devido a uma eventual lesão ao princípio da condição mais benéfica ao trabalhador: Esse último princípio visa "proteger situações pessoais mais vantajosas que se incorporaram ao patrimônio do empregado, por força do próprio contrato de forma expressa ou tácita" (BARROS, 2009, p. 182).

Ora, se o empregado reclama do empregador sobre algo irreal, este não pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer sob o pretexto de se aplicar a condição mais benéfica, uma vez que essa condição nunca existiu. Dessa forma, inexistindo determinada situação alegada, nada há de ser incorporado ao patrimônio do empregado, e, portanto, a realidade se sobrepõe, nesse caso, em favor do empregador. Em outras palavras, não há de se falar em condição (seja mais benéfica ou não) daquilo que não existe.

Por outro lado, se o trabalhador passa a exercer suas atividades em condições menos benéficas em relação àquelas pactuadas no contrato, (nesse caso!) é bem verdade que não é dada ao empregador a utilização do princípio da primazia da realidade, uma vez que uma outra condição de fato existiu (quando seja, num momento anterior em que houve o pacto entre as partes). Contudo, sendo aquela condição contratada anteriormente mais benéfica, o princípio a ser utilizado é o da proteção.

O que não se pode olvidar é que existem situações em que o empregado litigue de má-fé - a exemplo do caso da folha de ponto que indica jornada de trabalho sobre-humana – ou que, simplesmente, exista uma dúvida, a princípio gerada pela incompletude de informações no contrato ou documento, e que, quando sanada a partir de uma análise dos fatos, enquadre o trabalhador numa situação que gere menos encargos ao empregador – que é exemplo o caso do motorista que exerce sua função não apenas para a parte contratante, mas para sua família: deixando de ser empregado comum para se enquadrar como doméstico, apesar de contrato em outro sentido.

Nesses casos são comuns os erros materiais ou a incompletude das informações, e não se pode dizer que alguma vez existiu condição mais benéfica – aqui dando entendimento de existência de condições trabalhistas àquelas previstas e contratadas entre os dois pólos da relação, pela livre vontade deles, o que, vale lembrar, pode acontecer tacitamente.

Nesse sentido, existe precedente judicial, do qual destacamos:

EMENTA: PEDIDO DE HORAS EXTRAORDINÁRIAS. JORNADA DE TRABALHO SOBRE-HUMANA DECLINADA NA EXORDIAL. NECESSIDADE DE APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DA PRIMAZIA DA REALIDADE E DA RAZOABILIDADE EM FAVOR DO EMPREGADOR. Exageros processuais vêm sendo cometidos indistintamente por empregadores e empregados, razão por que o Julgador não pode ser um servil intérprete da letra da lei, mas deve ser capaz de aplicar a norma dentro de um contexto de realidade e de razoabilidade. Recurso não provido. (TRT-MT – RO-3184/99 – Rel. Nicanor Fávero, grifo nosso).

Ainda fazendo parte do acórdão o seguinte trecho:

Embora seja mais usual invocar tais princípios para a proteção dos direitos do trabalhador, nada impede que a aplicação de ambos os princípios seja feito (sic) em favor do empregador, como se deu nos caso (sic) destes autos[2].

Dessa forma, é certo dizer que se consubstancia deslealdade por parte do empregado o fato desse pretender utilizar documento com informações irreais em seu benefício, o que dá ensejo ao empregador invocar a primazia da realidade, se beneficiando desse valor do Direito Trabalhista.

Vale dizer que o documento aqui referenciado não é o contrato de trabalho - pois esse, se mais benéfico ao empregado, deve ser considerado em detrimento de outros (inclusive deleis!)[3], além de tratar-se em si dos ajustes das próprias condições de trabalho, o que não ocorre somente no início da relação de emprego, mas no dia-a-dia à medida em que surgem as necessidades empresariais – e sim os documentos acessórios ao contrato, exempli gratia, a folha de controle de frequência e de horários.

É que o princípio da primazia da realidade trata justamente da divergência entre os fatos e os registros formais, correspondendo aqueles ao contrato feito sucessivamente com o decorrer do tempo, que deve ser entendido como o pacto, o acordo, entre as partes para a execução do trabalho, sem se esquecer que ele pode ser tácito inclusive, e esses últimos aos documentos utilizados como registros dos fatos.

Portanto, a incidência do princípio da primazia da realidade sobre os dois pólos da relação de emprego apenas tende a reforçar a objetividade da boa fé e a tutela da confiança entre eles, além de promover o caráter sinalagmático dessa relação.

8 – Considerações finais

Concluindo, o princípio trabalhista em questão deve receber elevada importância dentro da tábua axiológica do Direito do Trabalho, além de plena aplicação, pois se figura como um poderoso instrumento da boa-fé objetiva na relação de emprego quando utilizado de forma equilibrada junto à razoabilidade[4], o que possibilita, assim, a promoção de um tratamento igualitário entre as partes - considerando as proporções de desigualdade - e o efetivo alcance da finalidade social do trabalho.

Finalmente, a primazia da realidade no Direito Trabalhista alarga a confiança entre os dois pólos da relação de emprego na medida em que assegura o reconhecimento das obrigações e deveres devidos oriundos de uma condição informal ou falsa na sua formalidade, além de relativizar o pacta sunt servanda - subordinando o contrato à realidade e à boa-fé objetiva - e promover a igualdade na relação entre operário e empresa, levando sempre em consideração que a finalidade de tudo é a dignidade da pessoa humana, a partir da interpretação razoável dos fatos.

REFERÊNCIAS

BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 5ª Edição, revista e ampliada. São Paulo: LTR, 2009.

BRASIL. Constituição da República Federetiva do Brasil, de 5 de outubro de 1988. In: PRÊSIDENCIA. Legislação. Brasília, 1988.

BRASIL. Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. In: PRÊSIDENCIA. Legislação. Rio de Janeiro, 1943.

BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. In: PRÊSIDENCIA. Legislação. Brasília, 2002.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho (3ª Região). RO 17.608/96. Rel. Juiz Marcos Heluey Molinari. Belo Horizonte – MG. 24 de abril de 1997. Disponível em http://www.forumcontabeis.com.br/ler_topico.asp?id=11485. Acesso em 18/12/2010.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho (15ª Região). RO 014980/2000. Rel. Juiz Luiz Antônio Lazarim. Campinas-SP, 28 de janeiro de 2002. Disponível em http://www.superjuridico.com/jurisprudencia/82/onus_da_prova.html. Acesso em 15/12/2010.

BRASIL.Tribunal Regional do Trabalho (23ª Região). RO n.º 1260/99, Ac. TP n.º 3661/99. Relator Juiz João Carlos.Cuiabá-MT, 14 de dezembro de 2002. Disponível em http://jus.uol.com.br/revista/texto/16675/reclamacao-trabalhista-primazia-da-realidade. Acesso em 15/12/2010

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho (23ª Região). RO-3184/1999. Rel. Nicanor Fávero. Cuiabá-MT. 03 de maio de 2000.

COSTA, Patricia Ayub da; GOMES, Sergio Alves. O Princípio da Boa-fé Objetiva à Luz da Constituição. CONPEDI – Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD Nelson. Direito Civil – Teoria Geral. 8ª edição, 2ª tiragem. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.

MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 26ª. São Paulo: Atlas, 2010.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 25ª edição. São Paulo: Atlas, 2010.

SCHREIBER, Anderson. A Proibição de Comportamento Contraditório – Tutela da Confiança e Venire Contra Factum Proprium. Rio de Janeiro: Renovar, 2005.

[1] Conforme preleciona Barros (2009, p.187), o contrato de trabalho "é de trato sucessivo, ou seja, ele não se esgota mediante a realização instantânea do ato, mas perdura no tempo".

[2] Na mesma linha: EMENTA: EMPREGADO DOMÉSTICO. PRIMAZIA DA REALIDADE. Se o reclamante sempre exerceu a função de motorista familiar, apesar de admitido como motorista da reclamada, prevalece para todos os efeitos a sua condição de doméstico, haja vista a tão decantada primazia da realidade, que é o princípio aplicável também aos empregadores e não somente aos empregados. (TRT 3 ª R. - RO 17.608/96 - 3ª T. - Rel. Juiz Marcos Heluey Molinari).

[3] Esse é o corolário do princípio da proteção, que deve ter como um de seus entendimentos o da aplicação da norma mais favorável ao trabalhador. No contexto desse estudo, é importante salientar que documento (aquele que o princípio da primazia da realidade trata) não se confunde com norma. Norma é a fonte do Direito do Trabalho, é o regramento que incide sobre a relação de emprego.

[4] Martins (2010, p.62) explica que "O princípio da razoabilidade esclarece que o ser humano deve proceder conforme a razão, de acordo como procederia qualquer homem médio ou comum."


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Estrito princípio da legalidade na alteração devida homenagem.

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Francisco Silva Laranja

Advogado e Consultor Tributarista

1. Breve introdução

O Princípio da Legalidade, bem como da Estrita Legalidade Tributária são garantias decorrentes dos direitos fundamentais da pessoa humana, decorrentes do art. 5º da Constituição Federal, especificamente do seu inciso II que determina que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei. O Princípio da Legalidade, já de longa data instituído no ordenamento jurídico pátrio, decorre da história do Direito Tributário, eis que a instituição de tributos, durante muitos séculos, ficava ao arbítrio do governante, vindo o referido princípio a limitar o poder tributante.

O professor Roque Carrazza destaca em sua obra que o Princípio da Legalidade visa, ainda, a limitação do direito de tributar do Estado: “De fato, em nosso ordenamento jurídico, os tributos só podem ser instituídos e arrecadados com base em lei. Este postulado vale não só para os impostos, como para as taxas e contribuições que, estabelecidas coercitivamente, também invadem a esfera patrimonial privada.”.

A questão proposta provoca a reflexão sobre o momento do pagamento de tributos, se a alteração da data de vencimento traduz um fato que reclama a regulamentação por lei para que a Fazenda possa exercer o seu direito de exigir o pagamento do tributo.Na alteração da data do vencimento do tributo, devemos analisar se a legislação e o sistema constitucional tributário exige regulamentação legal para que o sujeito ativo da obrigação tributária possa alterar a data do vencimento sem previsão legal, mesmo que a alteração gere a antecipação da exigência. De acordo com a questão proposta, não estamos diante da majoração ou criação de exação, mas apenas modificação no prazo de recolhimento e se a alteração deste prazo exige previsão legal ou pode se dar por ato normativo do Poder Executivo, isto é, do próprio Poder Tributante.

Mas antes de ingressar no cerne da questão proposta, precisamos fazer algumas considerações sobre a previsão constitucional e o Princípio da Estrita Legalidade.

1. Da Previsão Constitucional No Brasil, exceto a Constituição de 1934, todas trazem o Princípio da Legalidade em seu conteúdo, asseverando a necessária segurança jurídica, especialmente nas relações entre contribuintes e Azienda. Na Constituição de 1891, encontramos o Princípio da Legalidade assim disposto: “nenhum imposto de qualquer natureza poderá ser cobrado senão em virtude de uma lei que o autorize (art. 72, parágrafo 30).” Não foi diferente na Constituição Federal de 1988.

A Constituição Federal traz em seu artigo 150 o Princípio da Legalidade no Sistema Constitucional Tributário brasileiro. Diz o referido dispositivo: “Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...)” Diante da previsão constitucional precisamos analisar se a alteração na data do pagamento de tributo determina exigência ou aumento de tributo. Segundo as palavras do mestre Hugo de Brito Machado, há necessidade de previsão legislativa para as imposições tributárias: “O tributo criado por lei, só por lei pode ser aumentado.

Nem seria necessário que a Constituição fosse explícita no pertinente ao aumento”. Pelas considerações do ilustre professor Hugo de Brito, já resta claro que o Princípio em exame está intimamente ligado à criação e aumento da tributação. O autor denomina de ‘imposições tributárias’, sendo que interpretamos esta expressão como a exigência ou aumento da tributação. Explica ainda o ilustre professor que a lei instituidora deve conter: “a)a descrição do fato tributável; b) a definição da base de cálculo e da alíquota, ou outro critério a ser utilizado para o estabelecimento do valor do tributo; c) o critério para identificação do sujeito passivo da obrigação tributária; d) o sujeito ativo da relação tributária, se for diverso da pessoa jurídica da qual a lei seja expressão da verdade.”

As considerações acima determinam os aspectos que devem estar disposto na lei instituidora do tributo, sendo que a forma de recolhimento, tais como guia com a qual o contribuinte irá recolher ou a data de vencimento ficam a cargo da legislação regulamentar, isto é, do ato normativo de competência do ente tributante. Na questão aqui em exame, qual seja, a simples alteração da data de recolhimento, não reflete aumento ou criação de tributo. Ao analisar a alteração de data de vencimento à luz do Princípio da Legalidade Tributária, o Supremo Tribunal Federal assim decidiu a matéria:

“ICMS. FATO GERADOR. DESEMBARAÇO ADUANEIRO DAS MERCADORIAS IMPORTADAS DO EXTERIOR. ANTECIPAÇÃO DA DATA DE RECOLHIMENTO. LEGITIMIDADE POR MEIO DE DECRETO. Apresenta-se sem utilidade o processamento de recurso extraordinário quando o acórdão recorrido se harmoniza com a orientação desta Corte no sentido da possibilidade da cobrança do ICMS quando do desembaraço aduaneiro da mercadoria (REs 192.711, 193.817 e 194.268), bem como de não se encontrar sujeita ao princípio da legalidade a fixação da data do recolhimento do ICMS (REs 197.948, 253.395 e 140.669) Agravo desprovido.” (grifo nosso)

A decisão do recurso acima indicado, pela corte responsável pela interpretação dos dispositivos constitucionais denuncia que a modificação, mesmo que antecipando o recolhimento do tributo, não gera aumento da exação, não estando, destarte, sujeita ao princípio constitucional da legalidade.

2. Da Estrita Legalidade

Ao Poder Executivo não é dado inovar na tributação. O Princípio da Estrita Legalidade está previsto no art. 97 do Código Tributário Nacional, e determina quais as matérias tributárias exigem a previsão legal, ou seja, quais as matérias estão subordinadas ao Princípio da Legalidade. Luciano Amaro, na sua obra Direito Tributário Brasileiro explica que: “Os regulamentos, portanto, embora úteis como instrumento de aplicação da lei, não podem, obviamente, inovar em nenhuma matéria sujeita à reserva da lei.”

A Estrita Legalidade especifica as matérias que necessariamente reclamam previsão em lei, restando dispensada da previsão legislativa as matérias que não se encontram no art. 97 do Código Tributário Nacional, consequentemente. Diz o art. 97 do CTN:

“Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: I - a instituição de tributos, ou a sua extinção; II - a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III - a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV - a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; V - a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI - as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. § 1º Equipara-se à majoração do tributo a modificação da sua base de cálculo, que importe em torná-lo mais oneroso. § 2º Não constitui majoração de tributo, para os fins do disposto no inciso II deste artigo, a atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo.”

Analisando o disposto no artigo supra transcrito, verificamos que em nenhum momento há necessidade de previsão legal para a alteração de data de pagamento, senão vejamos: inciso I – a simples alteração na data de vencimento não reflete instituição de tributo; II – a alteração na data não gera majoração do tributo ou sua redução; III – a fixação do vencimento não é fixação do fato gerador; IV – também não se trata de fixação de alíquota ou base de cálculo; V e VI – alteração da data não é penalidade nem mesmo hipótese de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários.

Destarte, chegamos à conclusão de que a simples alteração na data de vencimento do tributo não está no rol taxativo da Estrita Legalidade, e, portanto, não se sujeita ao Princípio da Estrita Legalidade. O art. 97 acima transcrito, determina de forma expressa que a alteração na data do pagamento de tributo não precisa ser determinada por lei, não se sujeita ao Princípio da Legalidade, podendo ser fixada por ato regulamentar do ente tributante.

“TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. SITUAÇÃO CONCRETA E LEI EM TESE. DISTINÇÕES. ICMS. SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. ESTADO DO RIO DE JANEIRO. PRAZO PARA RECOLHIMENTO DO TRIBUTO. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA ESTRITA LEGALIDADE TRIBUTÁRIA. PRECEDENTES. 1. O mandado de segurança contra lei em tese é o que tem por objeto o ato normativo abstratamente considerado, ou seja, "...quando a impetração nada indica, em concreto, como representativo de ameaça de lesão à esfera jurídica do impetrante" (STF, RE 99.416/SP, Primeira Turma, Min. Rafael Mayer, DJ de 22.04.1983). No caso, entretanto, a norma impugnada constitui mero fundamento do pedido e não seu objeto, havendo, portanto, indicação de situação individual e concreta a ser tutelada. 2. No Estado do Rio de Janeiro, o prazo para recolhimento do ICMS, previsto em ato do Secretário de Estado da Receita, guarda consonância com a legislação estadual. Tanto a Lei Estadual 846/85, como o Decreto 27.427/2000 autorizam que a exigência seja feita quando da entrada, no Estado, da mercadoria tributada sob o regime de substituição tributária. 3. Nos termos do art. 97 do CTN, o princípio da estrita legalidade tributária não se aplica à definição da data de pagamento do crédito tributário. Precedentes do STF e do STJ. 4. Recurso ordinário a que se nega provimento.”

3. Conclusão

O sistema constitucional tributário, considerado o conjunto de princípios e normas que buscam regular a tributação e a forma como está deve ser operacionalizada, e ainda, analisando o sistema tributário à luz da legislação infra-constitucional e os atos regulamentares do Poder Tributante concluímos que a alteração na data de vencimento de tributo, bem como outras obrigações acessória que não geram aumento ou alteração na tributação, mas visam somente regular a forma como será adimplida a obrigação tributária escapam ao Princípio da Legalidade, podendo ser definidas por ato regulamentar do ente tributante.

Jamais uma alteração na tributação poderá se dar por ato do Poder Executivo, em respeito ao histórico e necessário Princípio da Legalidade, cabendo aos operadores do Direito estarem atentos aos atos normativos que por vezes podem ter conteúdo de aumento da tributação. Porém, respeitado o art. 150, I da Constituição Federal, bem como o art. 97 do Código Tributário Nacional, é perfeitamente válido o ato normativo regulamentar do Poder Tributante que altera, mesmo antecipando, a data de recolhimento de determinado tributo.

Bibliografia

CARRAZZA, Roque Antônio. CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL TRIBUTÁRIO. 22ª Ed. Malheiros : São Paulo, 2006;

MACHADO, Hugo de Brito. CURSO DE DIREITO TRIBUTÁRIO. 26ª Ed., Malheiros : São Paulo, 2005;

AMARO, Luicano. DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO. 4ª Ed., São Paulo : Saraiva, 1999.


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